Nascido numa Família de artistas (o pai Artista Plástico Consagrado e a mãe, Pianista Exímia), o Artista local apresenta sua primeira exposição sob muita expectativa. Sou naturalmente inquieto e isso só aumenta minha criatividade. Sempre fui assim. O Artista local, mais novo de três irmãos também artistas e bem conhecidos e resenhados, confessa que desde sua infância convivera com pessoas de Cultura. Os amigos de papai sempre bebiam vinho e conversavam coisas muito profundas, aos domingos, pela manhã, sob o som de Haydn. Na época eu perguntava: papai, o que está tocando? Ele respondia “Haydn, filho.”, eu tentava e não conseguia falar direito o nome [risos], mas adorava mesmo assim. Enquanto isso, eu e meus irmãos brincávamos de intelectuais. Acabei lendo muito, e já tinha A MONTANHA MÁGICA como meu livro de cabeceira. Como todo Artista local, ele não se esquece dos seus traumas infantis. Houve uma vez – quando estava me recusando a dormir, pois precisava terminar o Finnegans Wake, no original – em que papai, num acesso de raiva artística, rasgou o meu exemplar favorito de O homem sem qualidades, de Musil. [risos] Ele me fez limpar os pedaços e eu, como fiquei muito aborrecido, xinguei-o de sub-artista [risos, novamente]. Hoje, depois de anos no psiquiatra, me considero bem resolvido… somos bons amigos, eu e papai.
